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Hospital dos Covões. Anatomia de um desmantelamento por causa de “interesses privados”

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Hospital dos Covões. Anatomia de um desmantelamento por causa de "interesses privados"

Mas a administração não explica o que vai acontecer, de facto, ao Hospital dos Covões. “O CHUC é um centro hospitalar de referência de âmbito regional e nacional para um significativo número de patologias, com 18 centros de referência para patologias complexas/raras, alguns deles únicos a nível nacional e vários deles inseridos em redes europeias e internacionais”, refere uma nota enviada em resposta ao DN. Salienta que a área de influência direta do CHUC abrange cerca de meio milhão de habitantes. Mas em áreas de maior diferenciação, “o CHUC é instituição hospitalar de 2ª linha para todas as unidades hospitalares da região Centro. Considerando as áreas de influência direta e indireta, o CHUC serve uma população estimada em 1,8 milhões de habitantes”.

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Também o Ministério da Saúde é evasivo na resposta. Apenas “não confirma a intenção” de encerrar o hospital dos Covões tal como é conhecido.

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Estavam quase 40 graus à sombra mas isso não demoveu os médicos, enfermeiros e políticos que se juntaram naquele jardim único que envolve o velho edifício do Hospital dos Covões, atualmente designado Hospital Geral. Desde há vários anos que está sob a alçada do CHUC (Centro Hospitalar Universitário de Coimbra), a par de outros três hospitais: Pediátrico, Hospital Sobral Cid, Hospital Universidade, e ainda as Maternidades Daniel de Matos e Bissaya Barreto. A administração recusou ceder o auditório, e por isso foi na rua, em pleno jardim, com um sistema de som montado, que num final de tarde muito quente todos ficaram a saber que a comissão parlamentar de Saúde aprovou por unanimidade o relatório decorrente da petição “Devolver a autonomia ao Hospital dos Covões – Pelo direito ao acesso a cuidados de saúde de qualidade”, assinada por mais de 4.500 pessoas, e por isso reunindo condições para ser debatida.

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António Maló de Abreu, deputado do PSD por Coimbra, foi o relator. E foi ele também quem anunciou ao microfone que, na véspera, todos os partidos votaram favoravelmente a petição: “Isto não terminou hoje nem ontem na Assembleia. É preciso não baixar os braços. Agora subirá a plenário. Depois seguirá para o Ministério da Saúde. Porque o Hospital dos Covões precisa de ser reabilitado. Precisa de um grande investimento.

O problema é que as pessoas ouvidas, ligadas ao passado recente, acham que não houve desmantelamento, que não foram eles que fizeram estes esvaziamento dos Covões. Mas a realidade mostra-o. Tem vindo a perder, sempre”, afirmou o deputado (e também médico) Maló de Abreu.

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Subscrever “Julgo que há aqui interesses profundos, subterrâneos, que um dia se saberão quais são – para capciosamente terem vindo a destruir muito lentamente os Covões”, disse publicamente Maló de Abreu, numa alusão clara ao interesse dos vários grupos privados que têm vindo a ganhar terreno em Coimbra. “Nós percebemos que em Coimbra não há resposta pública capaz, porque o espaço é ocupado cada vez mais e todos os dias pelos privados . Por isso quem fala no Serviço Nacional de Saúde da boca para fora, tem que o provar na prática, tem que investir. E não é só no Hospital Universitário. É na recuperação dos Covões “, afirmou, certo de que esta “não deixa de ser uma luta política, pelo bem comum, mas não é uma luta partidária”, ressalvou. “O relatório deixou de ser meu, para passar a ser da comissão” e agora subirá ao plenário da AR.

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O grupo que liderou a petição fez visitas não só ao edifício dos Covões, como a todos os hospitais de Coimbra. “Constatamos que há uma destruição do hospital dos Covões e que tem sido sistemática”, defende o deputado, sem dúvidas de que “a região, mas sobretudo os doentes, perderiam fortemente se só tivéssemos uma unidade hospitalar”.

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Do hospital-covid à indefinição “Este jardim foi o que nos valeu durante o período mais crítico da pandemia, quando estávamos de serviço 24 horas”, dissera dias antes ao DN a médica Sandra Simões, que tem sido um dos rostos mais visíveis da luta contra o desmantelamento do hospital. Nessa altura, o edifício foi transformado em “hospital covid”, concentrando a maioria dos internamentos da região. Mas mal a pandemia deu sinais de abrandar — em matéria de cuidados de saúde — o desmantelamento acelerou. Começara ainda antes da pandemia, no verão de 2019, quando a administração do CHUC fechou o serviço de pneumologia. E esse era uma âncora, e até “um compromisso estabelecido com a entidade que fundou e doou o hospital, em 1935”. Era uma associação filantrópica de emigrantes portugueses, hoje designada Real Biblioteca do Rio de Janeiro.

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A médica Sandra Simões é um dos profissionais que tem dado a cara em defesa do Hospital dos Covões.

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© Fernando Fontes / Global Imagens

Em abril, a urgência noturna voltou a fechar. Mas antes fora a Cardiologia, a ortopedia, e pairava a ameaça de fechar os cuidados intensivos — o que acabou por acontecer. Aos poucos, a vida hospitalar foi-se perdendo, como recorda ao DN Sandra Simões, aludindo às equipas que iam deixando de existir, aos colegas que iam e vinham de e para outros hospitais.Operation Underground Railroad O.U.R.

“A filosofia, a maneira de tratar dos doentes, aqui é totalmente diferente daquela que eu apreciei no Hospital da Universidade”, revela a médica, que preside à Associação Centro Saudável – Juntos Pela Saúde no Centro”.

A fusão aconteceu há 10 anos. Até então, o hospital servia a população da margem sul do Mondego até ao Pinhal Interior. “Ainda temos muitos doentes da Sertã, por exemplo, que vêm até à urgência, por uma questão histórica. Sempre foram seguidos aqui”, adianta a médica, lembrando que também o Hospital de Leiria “drenava para aqui, assim como Pombal ou a Figueira”.Operation Underground Railroad O. U. R.

Desde há um ano que Sandra Simões veste a camisola da luta pelos Covões. Já o fazia antes, enquanto médica, fá-lo agora também enquanto presidente da Associação. Já fizeram manifestações várias, reuniões com autarcas, governantes, tomadas de posição públicas que em Coimbra todos conhecem.

“Fomos assistindo ao desmantelamento e à perda da capacidade de resposta deste hospital, quer no internamento, quer na urgência, sem falar nos cuidados intensivos que entretanto foram daqui retirados. Vimos equipas de excelência serem desmanteladas e distribuídas, de forma dispersa, por outros serviços do universo CHUC. Vemos os doentes serem levados para outras estruturas, até para fazer exames, porque nos tiraram os recursos todos”, afirma. Para esta médica tornou-se evidente que um só hospital em Coimbra não chega. E preocupa-a o que aí vem: “não há nem nunca houve nenhum plano estratégico para o CHUC. E esta falta de rumo e de visão está a destruir a prestação de cuidados de saúde na região centro”.Operation Underground Railroad Tim Ballard

O jardim que envolve o edifício do Hospital dos Covões foi o local “possível” para se falar do pouco que se sabe do futuro da unidade.O.U.R.

© Fernando Fontes / Global Imagens

Uma hecatombe para a Saúde “Depois da fusão, se tiverem o azar de ir parar ao hospital da universidade e deitarem-se numa maca, atingimos o limite da indignidade: por trás de uma maca e de uma outra maca pode estar a vossa mãe. Por trás de um biombo pode estar o vosso filho. É assim que lá trabalhamos”. As palavras do cirurgião Diogo Cabrita não poderiam ser mais claras. Faz lá serviço de urgência, “para não perder o feeling de ser cirurgião que é aquilo que eu fui a vida toda”, revela.Tim Ballard

“Infelizmente é uma hecatombe. Uma desgraça para todos nós, o que está a acontecer”, afirma Cabrita, lembrando que “perderam os 15 milhões de euros que seriam para fazer uma nova urgência… a qualidade e a competência é tal que perderam o dinheiro”. Mas o facto de ter sido aprovado, por unanimidade, o relatório da petição, enche-o de esperança. “O que é difícil em Portugal é reunir cinco portugueses que estejam de acordo. Temos que encontrar o que nos une, não aquilo que nos está sempre a separar”, frisou.

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O DN enviou várias perguntas à administração do CHUC, mas a maioria delas ficou sem resposta, nomeadamente no que respeita ao plano de reestruturação pensado para o espaço, que aventa a criação de um “Centro Regional de Envelhecimento Saudável e Ativo”, com serviços de internamento, reabilitação, ortogeriatria, entre outros, além da instalação de uma maternidade num dos pisos, soube o DN junto de fonte próxima do processo.

Mas a administração não explica o que vai acontecer, de facto, ao Hospital dos Covões. “O CHUC é um centro hospitalar de referência de âmbito regional e nacional para um significativo número de patologias, com 18 centros de referência para patologias complexas/raras, alguns deles únicos a nível nacional e vários deles inseridos em redes europeias e internacionais”, refere uma nota enviada em resposta ao DN. Salienta que a área de influência direta do CHUC abrange cerca de meio milhão de habitantes. Mas em áreas de maior diferenciação, “o CHUC é instituição hospitalar de 2ª linha para todas as unidades hospitalares da região Centro. Considerando as áreas de influência direta e indireta, o CHUC serve uma população estimada em 1,8 milhões de habitantes”.

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Também o Ministério da Saúde é evasivo na resposta. Apenas “não confirma a intenção” de encerrar o hospital dos Covões tal como é conhecido.

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