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Grupos conspiracionistas de extrema direita aceleram preparação do dia do colapso da ordem

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O QAnon se tornou um guarda-chuva para muitas teorias da conspiração, e nem todos os seus apoiadores estão esperando pela “tempestade” ou tentando causá-la. Mas ela acredita que isso deve provocar mais, e não menos, preocupação, porque os eventos do dia 6 de janeiro mostram que mesmo uma minoria extremista pode formar uma coalizão ampla, muito mais do que no passado

Para o QAnon é “a tempestade”, quando a violência em massa vai derrubar a elite formada por pedófilos que imaginam estar no controle do governo. Grupos supremacistas brancos nos EUA prometeram uma catastrófica guerra racial. Na Alemanha e Áustria, neonazistas defendem um golpe no “Dia X”, quando a ordem democrática desabar e eles assumirem o poder.

Todos são exemplos de ideologias “aceleracionistas”, que prometem um momento em que as instituições de governo, sociedade e economia serão varridas por uma onda de violência, abrindo caminho para as utopias que eles dizem que se seguirá.

O aceleracionismo há tempos faz parte do ideário de grupos supremacistas e milícias de extrema direita. Mas especialistas alertam que, agora, essa linha de pensamento está se disseminando de maneiras que poderão ameaçar não apenas a segurança pública, mas a estabilidade da democracia.

— De muitas maneiras podemos ver como o dia 6 de janeiro foi uma espécie de coalizão formada ao redor da ideia do aceleracionismo — afirmou Cynthia Miller-Idriss, diretora do Laboratório de Pesquisa sobre Polarização e Extremismo e Inovação da Universidade Americana, referindo-se ao ataque ao Congresso dos EUA .

Invasores do Capitólio; saiba quem são alguns dos personagens presos até agora pelo FBI RICHARD BARNETT, 66 anos, foi preso na setx-feira (8), por participação na invasão do Capitólio dos EUA, em Washington. O apoiador do presidente Donald Trump é o mesmo que aparece em imagens sentado e com os pés sobre uma mesa no escritório da presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi Foto: SAUL LOEB / AFP JACOB ANTHONY CHANSLEY. Também conhecido como Jake Angeli, 32, do Arizona, foi preso no final da tarde de sábado (9). Considerado o personagem que simbolizou a invasão ao Capitólio por causa de sua caracterização, o radical trumpista se apresentou voluntariamente às autoridades em Washington. Durante a invasão, Jake, que é adepto da teoria conspiratória QAnon, tinha o rosto pintado com as cores da bandeira dos EUA e vestia um chapéu de pele com chifres Foto: STEPHANIE KEITH / REUTERS ADAM CHRISTIAN JOHNSON, 36 anos, residente da Flórida, preso na noite de sexta-feira (8). Durante o tumulto no Capitólio, Adam foi flagrado carregando o púlpito da presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi Foto: WIN MCNAMEE / AFP LARRY RENDELL BROCK, de 53 anos, foi preso depois que sua ex-mulher o denunciou ao FBI. Texano, ele se rendeu aos agentes no domingo (10). Brock, que aparece em fotos registradas na Câmara do Senado, usava um capacete verde e um colete à prova de balas. Ele é tenente-coronel aposentado da Força Aérea dos Estados Unidos Foto: Win McNamee /   ERIC MUNCHEL, 30 anos, do estado do Tennesse, foi preso no domingo (10). Ele foi identificado como o homem que aparece vestindo colete à prova de balas e carregando presílias plásticas dentro do prédio do Capitólio. Ele também portava um taser durante a invasão Foto: WIN MCNAMEE / AFP Pular PUBLICIDADE DOUG JENSEN, 41 anos, morador do estado de Iowa, foi preso pelo FBI na madrugada de sábado. Doug foi reconhecido em imagem que se tornou icônica durante o motim no Capitólio. É ele o homem que, vestindo um boné de tricô e uma camiseta da QAnon com uma águia, aparece com os braços abertos enfrentando seguranças do Congresso Foto: MIKE THEILER / REUTERS Líderes mundiais, ela diz, não estão levando a sério o risco que essa coalizão pode representar.

Meu medo é de que nós, como país, estamos começando a tratar isso como um evento pontual, ao invés de um ponto de virada em potencial.

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“Eu penso muito nos paralelos com a República de Weimar”, o  frágil período democrático na Alemanha cujo colapso levou à ascensão dos nazistas, afirma Cynthia. Ele foi marcado por ataques, golpes fracassados e outros esforços para minar a democracia. E mesmo ações frustradas, como o Golpe da Cervejaria (1923) de Hitler, mostraram que a democracia alemã não era forte o bastante para suportar o caos.

Para mim, o paralelo que vejo é que muitos querem observar o 6 de janeiro como o fim de algo — pontua. — Acho que temos que considerar a possibilidade de que ele tenha sido o começo de algo.

PUBLICIDADE ‘Dia X’ Grupos neonazistas e demais extremistas há tempos falam do Dia X, um momento de crise, temido e aguardado, quando a ordem social da Alemanha entrará em colapso, exigindo dos comprometidos extremistas de direita, segundo suas narrativas, a tarefa de salvar a nação.

Nordkreuz, um grupo de extrema direita que inclui policiais e ex-soldados que faziam parte de uma rede com base no Telegram, começaram a se preparar para o Dia X de maneiras que pareciam assustadoramente concretas . Os planos incluíam a captura de inimigos políticos e aqueles que defendem imigrantes e refugiados, que seriam colocados em caminhões e levados a um local secreto, segundo relatos de uma testemunha à polícia. Depois, todos seriam executados.

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Os preparativos também incluíam o armazenamento de bolsas para cadáveres e cal viva. O líder do grupo, um ex-atirador de elite da polícia, foi condenado por acusações relacionadas à posse de armas, enquanto outros dois integrantes são investigados por suspeitas de planejar atos terroristas.

A linha entre a preparação para o Dia X e sua concretização está cada vez menos clara. O perigo do aceleracionismo é que ele santifica a violência, diz Matthias Quent, especialista na extrema direita e diretor de um instituto que estuda a democracia e a sociedade civil no estado da Turíngia, no Leste da Alemanha. Dias místicos de acerto de contas servem como um chamado para a ação, um pretexto para o terrorismo.

PUBLICIDADE — Quando o Dia X não chegar e as pessoas ficarem frustradas, elas podem começar a planejar ataques terroristas, algo para dar início ao Dia X ou apenas para agir — afirmou.

Riscos reais Algo central para compreender este tipo de fantasia apocalíptica é que, para as pessoas que abraçaram esse tipo de ideologia militante de extrema direita, um golpe como o Dia X não é algo que dá início ao apocalipse, mas sim que põe fim a ele, segundo Kathleen Belew, historiadora da Universidade de Chicago e uma das maiores especialistas em movimentos supremacistas brancos nos EUA.

Os riscos dessa ideologia passam longe de serem apenas teóricos.

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Na Alemanha, integrantes do grupo terrorista Revolução Chemnitz foram condenados por planejarem um ataque no dia 3 de outubro de 2018, apontado por eles como um “ponto de virada histórico”, quando uma “mudança de regime” seria forçada.

O atentado contra um prédio federal em Oklahoma (EUA) em 1995, que matou 168 pessoas, incluindo 19 crianças, foi realizado por militantes de extrema direita que se inspiraram no romance “O diário de Turner”, uma história de 1978 que narra uma violenta revolução nos EUA, seguida pelo genocídio contra pessoas não brancas. Em 2015, um supremacista citou o desejo de começar uma “guerra racial” como o motivo para matar nove negros em uma igreja de Charleston, na Carolina do Sul.

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Muitos participantes do ataque de 6 de janeiro contra o Capitólio viram no ato o primeiro passo para derrubar um governo que veem como corrupto ou a ordem social dos EUA, de forma mais ampla, diz Miller-Idriss.

Mas há outros riscos menos diretos, mas talvez mais sérios, segundo os especialistas. É provável que apenas uma pequena parte dos responsáveis pela invasão do Capitólio siga as ideias aceleracionistas do QAnon ou de milícias armadas, diz Miller-Idriss.

Supremacistas: Documentário da HBO sugere ter descoberto a verdadeira identidade de Q, o líder do QAnon

O QAnon se tornou um guarda-chuva para muitas teorias da conspiração, e nem todos os seus apoiadores estão esperando pela “tempestade” ou tentando causá-la. Mas ela acredita que isso deve provocar mais, e não menos, preocupação, porque os eventos do dia 6 de janeiro mostram que mesmo uma minoria extremista pode formar uma coalizão ampla, muito mais do que no passado.

Foi a primeira vez neste país em que vimos uma coalizão de sucesso, mesmo que espontânea, formada por uma grande variedade de grupos no espectro da extrema direita — apontou Miller-Idriss. — Foi uma coalizão que emergiu de forma quase espontânea, mostrando que, apesar das diferenças, esses grupos podem se unir em torno de um tema ou evento.

PUBLICIDADE Ao contrário dos supremacistas brancos dos anos 1980 e 1990, os extremistas de hoje possuem laços com a política tradicional. Vários parlamentares republicanos chegaram a seus cargos ao cultivar o apoio de defensores do QAnon. Na semana passada, republicanos no Senado barraram a criação de uma comissão independente para investigar os ataques do dia 6 de janeiro.

— Os EUA são um país que sempre gostou de se ver como um farol da democracia — concluiu Miller-Idriss. — Por isso mesmo penso que pode ser mais difícil para nós reconhecermos como nossa democracia pode ser frágil, como qualquer outra democracia no mundo.

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